EDITORIAL
ENTRE O RIGOR E A LIBERDADE: DESAFIOS EPISTÊMICOS DA ESCRITA CIENTÍFICA NA PESQUISA QUALITATIVA
BETWEEN RIGOR AND FREEDOM: EPISTEMIC CHALLENGES OF SCIENTIFIC WRITING IN QUALITATIVE RESEARCH
ENTRE EL RIGOR Y LA LIBERTAD: DESAFÍOS EPISTÉMICOS DE LA ESCRITURA CIENTÍFICA EN LA INVESTIGACIÓN CUALITATIVA
https://doi.org/10.31011/reaid-2026-v.100-n.1-art.2683
1Edirlei Machado Dos-Santos
2Helca Franciolli Teixeira Reis
1Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Câmpus de Três Lagoas (CPTL), Três Lagoas-MS, Brasil. Líder do Grupo de Estudo e Pesquisa Qualitativa em Enfermagem e Saúde (GEPQES). ORCID - https://orcid.org/0000-0002-1221-0377
2Universidade Federal da Bahia (UFBA), Instituto Multidisciplinar em Saúde (IMS), Vitória da Conquista-BA, Brasil. Membro do Grupo de Estudo e Pesquisa Qualitativa em Enfermagem e Saúde (GEPQES). ORCID - https://orcid.org/0000-0002-9120-6527
Autor correspondente
Edirlei Machado Dos-Santos
Avenida Ranulpho Marques Leal, n. 3.484, CEP- 79613-000, Três Lagoas-MS, Brasil. Fone: +55(67) 3509-3776, E-mail: edirlei.machado@ufms.br
Na contemporaneidade, o campo científico tem sido atravessado por um processo silencioso, porém profundamente transformador: a crescente conformação da produção do conhecimento às exigências editoriais. Esse fenômeno incide de forma particularmente intensa sobre a pesquisa qualitativa em saúde, sobretudo aquela ancorada em referenciais das ciências humanas e sociais, tensionando os modos de conceber, narrar e legitimar o conhecimento científico.
Pesquisadores que se dedicam a compreender a saúde para além dos determinantes biomédicos clássicos, incorporando dimensões simbólicas, culturais, subjetivas e éticas, deparam-se frequentemente com um obstáculo que não é teórico nem metodológico, mas estrutural. Em nome da qualidade, da padronização e da internacionalização, revistas científicas tendem a impor modelos homogêneos de escrita e de cientificidade, reduzindo a pluralidade epistemológica a formatos previamente legitimados.
Essa tensão entre rigor e liberdade metodológica dialoga com o que alguns autores¹ descrevem como trabalhar nas fissuras da pesquisa qualitativa, uma tentativa de resistir aos processos de normalização e domesticação epistemológica. No campo pós-qualitativo, a escrita científica é compreendida como prática ético-política, na qual a criatividade, a reflexividade e a pluralidade investigativa não devem ser sacrificadas em nome de conformidades editoriais¹.
A experiência de submissão a periódicos de alto impacto evidencia um paradoxo recorrente. Enquanto se valoriza discursivamente a interdisciplinaridade e a diversidade epistemológica, observa-se, na prática, a homogeneização das formas de escrita e argumentação. Manuscritos originalmente vinculados a projetos teórico-metodológicos singulares são submetidos a sucessivas rodadas de ajustes que, quando não atendidas, culminam em recusa. O texto, antes situado e autoral, converte-se progressivamente em um produto genérico, moldado pelas expectativas editoriais.
Esse processo fragiliza a autonomia epistemológica do pesquisador e desloca o foco da relevância científica para a aceitabilidade formal. A colcha de retalhos resultante das exigências editoriais não se restringe a um problema estético, mas assume contornos éticos e políticos. Publica-se, muitas vezes, o que se adequa aos parâmetros dominantes, e não necessariamente o que melhor expressa a complexidade do fenômeno investigado.
No campo da saúde, especialmente na enfermagem, em que o diálogo com as ciências humanas tem se intensificado, essa tensão se agrava. A pesquisa qualitativa, orientada pela interpretação de sentidos e experiências, é frequentemente avaliada segundo critérios derivados do paradigma quantitativo. A densidade analítica, a coerência interna e a consistência teórica cedem espaço à padronização estrutural e à tradução conceitual para linguagens mais aceitáveis ao campo biomédico.
Tal cenário reforça a necessidade de distinguir rigor de rigidez metodológica². O rigor na pesquisa qualitativa está associado à coerência entre objetivos, referencial teórico, percurso metodológico e interpretação, e não à aplicação uniforme de modelos prescritivos. A substancialidade epistemológica decorre do compromisso ético e reflexivo do pesquisador, e não da obediência formal a checklists².
Revisões recentes sobre critérios de qualidade em pesquisa qualitativa³ alertam que, embora padrões de rigor sejam importantes, a insistência em listas técnicas universais pode sufocar a diversidade metodológica e interpretativa do paradigma qualitativo³. Guias de relato, como Standards for reporting qualitative research (SRQR) e Consolidated criteria for reporting qualitative research (COREQ), contribuem para a transparência, mas tornam-se problemáticos quando passam a orientar retrospectivamente o desenho do estudo, empobrecendo a reflexividade e a profundidade interpretativa³.
No contexto da avaliação por pares, essa lógica se articula à cultura do publish or perish e às métricas de produtividade, favorecendo agendas e escolhas metodológicas de baixo risco. Tal dinâmica tem sido analisada como expressão de colonialidade epistêmica, na qual padrões hegemônicos do Norte Global se impõem sobre epistemologias locais e modos emergentes de produção de conhecimento⁴.
Do ponto de vista ético-epistemológico, esse processo dialoga com a noção de injustiça epistêmica, na medida em que narrativas situadas, saberes interpretativos e vozes de populações vulnerabilizadas tendem a ser deslegitimadas por padrões editoriais que privilegiam o quantificável e o normatizado⁴. A neutralidade editorial, nesse sentido, revela-se ilusória, pois todo processo avaliativo está atravessado por valores, crenças e relações de poder.
Se nas ciências humanas o conhecimento se constrói pelo encontro, pela linguagem e pela polissemia dos sentidos, o modelo editorial dominante parece operar na direção oposta, priorizando o controle da forma em detrimento da densidade do conteúdo. A escrita científica perde vigor, tornando-se um exercício de adaptação, no qual a voz autoral é progressivamente silenciada.
O que está em jogo não é apenas a aceitação de manuscritos, mas a própria configuração simbólica da ciência. Quando um estudo qualitativo é reformulado para atender expectativas editoriais, corre o risco de se transformar em um simulacro de cientificidade, distanciado do campo vivido, da escuta empírica e do referencial que o sustentou. A pergunta que se impõe é quantos textos publicados ainda preservam a voz original de seus autores.
Diante desse cenário, propõem-se ajustes institucionais nos processos editoriais, como o pareamento de revisores com expertise no referencial adotado, a priorização da coerência interna sobre critérios prescritivos, a explicitação das exigências metodológicas nos pareceres e o compromisso declarado com a pluralidade epistemológica. No nível do manuscrito, recomenda-se o fortalecimento da reflexividade, a justificativa explícita do desenho metodológico e o uso crítico de checklists como instrumentos de relato, não como moldes investigativos.
Portanto, qualidade e diversidade não são antagônicas. A ciência em saúde se fortalece quando acolhe múltiplas formas de evidência, desde que internamente coerentes e eticamente responsáveis. Cabe aos editores e revisores sustentar o rigor sem impor rigidez, e aos autores defender a integridade de suas escolhas com clareza e responsabilidade. Entre a ciência e a conformidade, que prevaleça uma ciência plural, situada e comprometida com a compreensão profunda do cuidar.
REFERÊNCIAS
1. Carlson DL, Wells TC, Mark L, Sandoval J. Introduction: Working the Tensions of the Post-Qualitative Movement in Qualitative Inquiry. Qualitative Inquiry. 2020;27(2):151-7, 2020. https://doi.org/10.1177/1077800420922271
2. Lim WM. What Is Qualitative Research? An Overview and Guidelines. Australasian Marketing Journal, 33(2), 199-229, 2024. Doi: https://doi.org/10.1177/14413582241264619
3. Johnson JL, Adkins D, Chauvin S. A review of the quality indicators of rigor in qualitative research. American J Pharmaceutical Educ. 2020;84(7120). Doi: https://doi.org/10.5688/ajpe7120
4. Heggen KM, Berg H. Epistemic injustice in the age of evidence-based practice: The case of fibromyalgia. Humanit Soc Sci Commun. 2021;8(235). Doi: https://doi.org/10.1057/s41599-021-00918-3
Fomento e Agradecimento:
Nada a declarar
Critérios de autoria (contribuições dos autores)
Ambos os autores contribuíram da seguinte forma: 1. contribui substancialmente na concepção e/ou no planejamento do estudo; 2. na obtenção, na análise e/ou interpretação dos dados; 3. assim como na redação e/ou revisão crítica e aprovação final da versão publicada.
Declaração de conflito de interesses
Nada a declarar
Editor Científico: Ítalo Arão Pereira Ribeiro. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0778-1447
Rev Enferm Atual In Derme 2026;100(1): e026012